eu outro gole de vinho. -
Além disso - disse, limpando a boca -, Daeren Targaryen
tinha só dezoito anos quando morreu. Ou será que se
esqueceu dessa parte?
- Não me esqueço de nada - vangloriou-se Jon. O vinho o
estava deixando ousado. Tentou sentar-se muito ereto para
parecer mais alto. - Quero servir na Patrulha da Noite, tio.
Tinha refletido sobre o assunto longa e duramente, deitado na
cama à noite enquanto os irmãos dormiam à sua volta. Robb
um dia herdaria Winterfell, comandaria grandes exércitos
enquanto Protetor do Norte. Bran e Rickon seriam vassalos
de Robb e governariam castros em seu nome. As irmãs, Arya
e Sansa, se casariam com os herdeiros de outras grandes Casas
e iriam para o sul como senhoras dos seus próprios castelos.
Mas a que lugar podia um bastardo aspirar?
- Não sabe o que está pedindo, Jon. A Patrulha da Noite é
uma irmandade juramentada. Não temos famílias. Nenhum
de nós será algum dia pai. Somos casados com o dever. Nossa
amante é a honra.
- Um bastardo também pode ter honra - disse Jon. - Estou
pronto para prestar o juramento.
- Você é um rapaz de catorze anos - disse Benjen. - Não é um
homem. Ainda não. Até ter conhecido uma mulher, não pode
compreender o que estará deixando para trás.
- Isto não me interessa! - Jon respondeu ardentemente.
- Mas poderia se interessar se soubesse a que me refiro - disse
Benjen. - Se soubesse o que o juramento lhe custará, estaria
menos ansioso por pagar o preço, filho.
Jon sentiu a ira crescer no peito.
- Não sou seu filho! Benjen Stark pôs-se em pé.
- Maior é a pena - pôs uma mão no ombro de Jon. - Venha ter
comigo depois de ter sido pai de alguns bastardos seus e
veremos então como se sente.
Jon estremeceu.
- Nunca serei pai de um bastardo - disse com cuidado. -
Nunca! - cuspiu a palavra como se fosse veneno.
De súbito, percebeu que a mesa caíra em silêncio e que todos
o estavam olhando. Sentiu que as lágrimas começavam a
jorrar por trás de seus olhos e pôs-se em pé.
- Devo me retirar - disse, com o resto de sua dignidade. Virou-
se e fugiu antes que o vissem chorar. Devia ter bebido mais
vinho do que se dera conta. Seus pés emaranhavam-se
debaixo do corpo quando tentou sair do salão e cambaleou de
lado, esbarrando numa criada, atirando ao chão um jarro de
vinho com especiarias. Gargalhadas trovejaram por todo o
lado à sua volta, e Jon sentiu lágrimas quentes nas
bochechas. Alguém tentou equilibrá-lo, mas ele saiu com
violência daquelas mãos e correu meio cego para a porta.
Fantasma o seguiu de perto para a noite.
O pátio estava silencioso e vazio. Uma sentinela solitária
estava bem no alto, nas ameias da muralha interior, bem
enrolada no manto contra o frio. O homem parecia aborrecido
e infeliz ao apertar-se ali, sozinho, mas Jon teria rapidamente
trocado de lugar com ele. Além da sentinela, o castelo estava
escuro e deserto. Jon vira certa vez um castro abandonado,
um lugar lúgubre onde nada se movia além do vento e as
pedras mantinham o silêncio acerca de quem ali vivera. Hoje,
Winterfell lembrava-lhe esse dia.
Os sons de música e cantos derramavam-se pelas janelas
abertas em suas costas. Eram as últimas coisas que Jon
queria ouvir. Limpou as lágrimas na manga da camisa,
furioso por tê-las deixado fluir, e virou-se para ir embora.
- Rapaz - chamou uma voz.
Jon voltou-se.
Tyrion Lannister estava sentado na saliência por cima da
porta do grande salão, assemelhando-se por completo a uma
gárgula. O anão sorriu-lhe.
- Esse animal é um lobo?
- Um lobo gigante - disse Jon. - Chama-se Fantasma - pôs-se
a olhar o homenzinho, de súbito esquecido do
desapontamento. - O que faz aí? Por que não está no
banquete?
- Está demasiado quente, demasiado ruidoso e bebi
demasiado vinho - disse o anão. -Aprendi há muito que se
considera má-educação vomitar por cima do irmão. Posso ver
o seu lobo mais de perto?
Jon hesitou, mas depois concordou devagar.
- Consegue descer daí ou devo ir buscar uma escada?
- Ah, que se dane - disse o homenzinho. Atirou-se da saliência
para o ar vazio. Jon sobressaltou-se, depois viu com um
temor respeitoso como Tyrion Lannister rodopiou numa bola
apertada, aterrissou ligeiro sobre as mãos e depois volteou
para trás, caindo em pé.
Fantasma afastou-se dele com receio.
O anão sacudiu o pó e soltou uma gargalhada.
- Creio que assustei seu lobo. Minhas desculpas.
- Não está assustado - disse Jon. Ajoelhou-se e chamou seu
lobo. - Fantasma, vem cá. Anda. Isso mesmo.
A cria de lobo aproximou-se e encostou o focinho no rosto de
Jon, mas manteve um olho cuidadoso em Tyrion Lannister, e,
quando o anão estendeu a mão para lhe fazer uma festa,
afastou-se e mostrou os caninos num rosnado silencioso.
- É tímido, não é? - observou Lannister.
- Senta, Fantasma - ordenou Jon. - Isso mesmo. Quieto -
ergueu os olhos para o anão. - Pode tocá-lo agora. Ele não se
mexerá até que eu lhe diga para fazê-lo. Eu o tenho treinado.
- Compreendo - disse o Lannister. Esfregou o pelo branco
como a neve entre as orelhas de Fantasma e disse: - Bonito
lobo.
- Se eu não 